Na maioria dos casos, o atraso na intervenção não ocorre por falta de tecnologia.
Ocorre porque a rota diagnóstica não está clara ou não é ativada com urgência.
Este artigo responde a uma pergunta muito objetiva:
Se houver suspeita de que uma criança tem perda auditiva, o que exatamente o pediatra, o audiologista e o otorrinolaringologista devem fazer — e quais exames devem ser realizados em cada etapa?
1. O Pediatra: primeiro ponto crítico na cadeia
O pediatra não confirma a hipoacusia, mas é o profissional que mais influencia para que o diagnóstico ocorra no tempo adequado.
A. No período neonatal
Deve garantir que o recém-nascido realize:
1. Emissões otoacústicas (EOA).
2. Potenciais evocados auditivos automatizados (AABR ou PEATE-A).
Se o bebê não passar na triagem:
3. Repetir o exame antes dos 30 dias.
4. Encaminhar imediatamente para avaliação audiológica diagnóstica.
Não é recomendável adotar uma postura de “vamos aguardar”.
B: Durante consultas no primeiro ano de vida
O pediatra deve observar:
- Ausência de sobressalto a sons intensos
- Ausência de balbucio aos 6 meses
- Não responder ao nome aos 9 meses
- Atraso nas primeiras palavras após 1 ano
Diante de qualquer um desses sinais:
5. Encaminhamento imediato à audiologia
6. Avaliação de fatores de risco (Citomegalovírus, prematuridade, internação em UTI neonatal, histórico familiar).
C. Após o primeiro ano de vida e idade escolar: identificação de perdas auditivas adquiridas
A perda auditiva não se limita ao período neonatal.
Crianças que nasceram com audição normal podem desenvolver perda auditiva posteriormente, seja na primeira infância ou em idade escolar.
O pediatra deve estar atento a:
- Regressão na linguagem previamente adquirida.
- Dificuldade para compreender fala, especialmente em ambientes ruidosos.
- Necessidade frequente de repetir instruções.
- Aumento do volume de dispositivos eletrônicos.
- Queda no desempenho escolar.
- Queixas de professores relacionadas à atenção ou compreensão verbal.
- Histórico de infecções recorrentes de ouvido ou meningite.
Diante de qualquer suspeita:
7. Encaminhamento imediato para avaliação audiológica completa.
8. Considerar avaliação otorrinolaringológica.
9. Evitar atrasos sob a suposição de que “a criança já ouviu normalmente antes”.
A identificação tardia de perda auditiva adquirida pode impactar negativamente o desenvolvimento acadêmico, social e emocional, mesmo em crianças que tiveram desenvolvimento inicial típico.
2. O Audiologista: confirmação diagnóstica completa
O objetivo do audiologista é determinar:
- Tipo de perda auditiva.
- Grau da perda auditiva.
- Benefício funcional real com amplificação.
Uma avaliação incompleta atrasa decisões.
A. Exames diagnósticos essenciais
1. Anamnese audiológica detalhada.
2. Otoscopia (quando aplicável).
3. Timpanometria (preferencialmente com sonda de alta frequência em lactentes).
4. Reflexos acústicos.
5. Emissões otoacústicas.
6. PEATE diagnóstico.
7- PEAee (ASSR), quando necessário para estimativa por frequência.
8- Audiometria comportamental conforme a idade (VRA, CPA.)
9- Audiometria tonal e vocal, quando possível.
Esses exames permitem confirmar hipoacusia neurossensorial bilateral severa ou profunda, quando presente.
B. Adaptação de aparelhos auditivos (quando indicada)
Se for confirmada perda significativa:
10. Adaptação com regras prescritivas pediátricas validadas (DSL ou NAL)
11. Verificação objetiva por meio de:
- Medidas em orelha real (REM), ou
- RECD (Real Ear to Coupler Difference).
C. Validação do benefício funcional
12. Audiometria em campo livre com aparelhos auditivos.
13. Testes de percepção de fala.
14. Questionários para pais (ex.: IT-MAIS).
15. Avaliação da evolução nos marcos auditivos e de linguagem.
Se, apesar de aparelhos bem ajustados, não houver progresso esperado, a rota deve avançar sem demora.
3. O Otorrinolaringologista: avaliação médica e anatômica
O otorrinolaringologista confirma a viabilidade médica e exclui contraindicações.
A. Avaliação clínica
1. História perinatal (Citomegalovírus, hipóxia, prematuridade).
2. Antecedentes familiares.
3. Avaliação otológica completa.
4. Verificação do calendário vacinal.
B. Exames de imagem
5. Ressonância magnética de osso temporal bilateral.
6. Tomografia computadorizada, quando necessário complementar.
7. Confirmação da presença de cóclea e nervo auditivo.
C. Avaliação etiológica
8. Testes genéticos em perda congênita sem causa definida.
9. Avaliação prioritária em casos de meningite devido ao risco de ossificação coclear.
4. Evidência relevante na América Latina
A região produziu evidências importantes:
- O Brasil documentou a viabilidade e expansão de programas de triagem auditiva neonatal universal (Bevilacqua et al., 2010)¹.
- A Organização Pan-Americana da Saúde relatou desafios e avanços na triagem neonatal na América Latina (Garcia et al., 2011)².
- O Chile possui diretriz clínica nacional que respalda triagem universal e diagnóstico precoce.
- A Cochlear desenvolveu protocolos baseados no Consenso Latinoamericano en el manejo del paciente con pérdida auditiva y el papel del implante coclear.
Isso demonstra que a urgência diagnóstica não é apenas um padrão internacional — é uma necessidade regional documentada.
5. Mensagem central
Se queremos melhorar resultados em linguagem:
- Não basta realizar triagem
- Não basta adaptar aparelhos auditivos
- Não basta confirmar limiares
É necessário:
Diagnóstico completo → Amplificação verificada → Medição objetiva de benefício → Decisão oportuna.
O atraso ocorre quando algum desses passos é omitido.
D2442752
Referências:
1.Overview of newborn hearing screening activities in Latin America. Barbara Gerner de Garcia 1, Claudia Gaffney, Susan Chacon, Marcus Gaffney. Revista Panamá Salud Pública. 2011 Mar;29(3):145-52.
2.The universal newborn hearing screening in Brazil: from identification to intervention. Maria Cecilia Bevilacqua 1, Kátia de Freitas Alvarenga, Orozimbo Alves Costa, Adriane Lima Mortari Moret. International Journal of Pediatric Otorhinolaryngology. 2010 May;74(5):510-5.doi: 10.1016/j.ijporl.2010.02.009. Epub 2010 Mar 19.
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